Casa 1: Socorro

Eu nasci em Socorro, mas morei lá apenas nos primeiros meses de vida. Não tenho lembranças, portanto, de uma casa onde eu tenha vivido naquela cidade. Mas me lembro bem, ali, da casa da minha avó paterna, Maria, onde passávamos sempre o Natal e parte das férias. Lá moravam, além da minha avó, meu avô e minha tia.

Era uma casa antiga, em que meu pai tinha nascido, com um longo quintal, cheio de árvores frutíferas, que ia terminar, depois de passar pelo galinheiro da minha avó, no Rio do Peixe.

Havia uma parreira, algumas laranjeiras, limoeiros, pitangueira, jambeiro, jabuticabeira, figueira, abacateiro. Por causa deste, inclusive, nós, crianças, éramos proibidas de ir ao pomar durante a temporada de frutas maduras, para evitar que fôssemos alvejadas por uma fruta madura na cabeça. Havia também um pé de cana e uma máquina de moer cana, na qual meu avô fazia garapa para nós. Sob a parreira, ficavam os ganchos da rede em que de vez em quando a gente se balançava loucamente.

Ainda no quintal, ficavam dois cômodos: uma cozinha, onde estava o fogão à lenha de alvenaria da minha avó e um quartinho de despejo. Nesse fogão ela cozinhava. Ainda me lembro do cheiro das galinhas sendo depenadas e do sabor dos cascões de polenta que ela me dava depois de raspá-los do fundo da panela de ferro.

Havia também um canteiro de violetas, diferentes dessas que se vendem hoje nos vasinhos: era rasteira e tinha folhas finas, sem penugem. As flores eram de um roxo quase azul.

Na frente da casa, ficava a loja de tecidos de minha avó, onde havia também um setor de selaria, remanescente da antiga profissão de meu avô, que era seleiro. Eu me lembro de que costumava brincar dentro do balcão da loja, num mundo de linhas, botões, fitas e colchetes (ela também vendia armarinho).

Nas noites de Natal, em geral dormíamos ali. Para as crianças, sobravam os pelegos coloridos estendidos no chão, pois não havia cama para todos. Antes de dormir naquele ninho cheirando a couro e tinta, deixávamos capim e milho para o cavalinho de Papai Noel. De manhã, no lugar deles, estavam os presentes, que seriam levados para a praça da matriz, naquele mesmo dia, para exibir para as outras crianças.

Até aqui, tudo parece muito bonito, mas para mim o que mais marcou naquela casa foi o fato de não haver sequer um livro ali. Nem Bíblia, nem Almanaque do Pensamento, nem dicionário, nada. Eu sempre fui viciada em livros, e não entendia como podia existir uma casa sem nenhum exemplar deles.

Nas férias, tinha síndrome de abstinência de leitura, e então corria para o quartinho de despejo, no quintal, onde fuçava até encontrar velhas revistas de minha tia: Romance Moderno, Sétimo Céu, Grande Hotel, umas fotonovelas de detetive chamadas Lucky Martin e Jacques Douglas, enfim, nada que valesse muito a pena, mas eram a minha salvação, quando batia o desespero. Mais tarde, comecei a levar para os dias de férias lá uma pequena biblioteca, pois as revistas velhas, lidas e relidas, já não me bastavam.

No início dos anos 70, minha avó adoeceu, morreu e foi velada naquela casa.

Quando se aposentou, meu pai voltou a morar nessa casa, que passou por uma grande reforma, eliminando a loja e ampliando os cômodos. Ainda hoje minha mãe mora lá. Meus natais continuam sendo passados ali, embora já não haja mais pelegos.

 

7 - Vo Atalicio com Ana Maria e Eduardo

(Meu irmão e eu no colo de meu avô, no quintal da casa)

   img036b         (Minha avó no balcão da loja de tecidos)

  6 comments

  1. Carmem   •  

    Muito bem! Dizem que compensamos os traumas de infância quando tomamos as rédeas da nossa vida. E assim, você corrigiu a falta de opções leitura desse tempo construindo sua enorme biblioteca, né?

    • psiulandia   •     Author

      Para depois desmanchar, né? 😉

  2. Paula   •  

    A Carmem resumiu exatamente o que estávamos conversando hoje, por aqui, a importância da evolução, de superar duficuldades, de construir uma vida mais de acordo com aquilo que consideramos correto. É o dar um passo além que faz o homem revolucionar os limites. Parabéns, curto muito seus textos.

  3. simonezac   •  

    que texto bonito, ana.
    fui transportada para a casa, casa da família, casa da infância e de uma vida inteira.
    suas lembranças são vivas e belas =-)

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