Casa 3: Amparo (casa da avó)

Morei pouco tempo em Amparo, por isso tenho poucas lembranças da casa onde vivemos. Minhas maiores e melhores lembranças de lá são da casa da minha avó, onde se reuniam os tios e primos nos fins de semana das férias, quando voltávamos para lá. Em geral eu ficava hospedada na casa da minha tia, onde havia primas mais ou menos da minha idade, mas a farra mesmo acontecia na casa da avó.

Ela administrava a casa e a venda a partir dessa escrivaninha em que ela aparece na foto. Era ali também que mantinha seus diários (que um dia seriam meus e sobre os quais já escrevi aqui). O armazém ficava na frente e a casa nos fundos. Eram dois espaços diferentes e igualmente sedutores para mim.

Na venda, eu aprendi com ela a receber os pagamentos no caixa e fazer o troco corretamente. Aprendi a calcular o peso dos produtos vendidos a granel antes mesmo de colocá-los na balança. Aprendi a cortar frios e a improvisar embalagens para produtos usando velhas revistas Cruzeiro e Manchete, colando os sacos com cola de farinha. Aprendi como era feito o controle das compras no fiado, anotando as contas no verso do papel dos pacotes de cigarro, dobrados em tiras, para depois passar a limpo nas fichas de cada freguês.

O armazém vendia de tudo: sabão, sorvete, pinga, croquete, caderno, cadarço, gilete, doce de abóbora, chocolate, mortadela, chiclete, salsicha em lata, pente, caixa de fósforo, bombril. As prateleiras eram um universo que eu não me cansava de investigar.

Atrás da venda, ficava a casa, muito diferente da casa da avó de Socorro. Em primeiro lugar, porque havia uma estante com livros que eu podia fuçar à vontade. E ainda uma coleção da revista Seleções! Era leitura que não acabava mais!

Tinha também os discos dos meus primos que moravam ali com ela. Foi com eles que conheci Caetano Veloso, Chico Buarque, Beatles, Rita Pavone, Peter, Paul & Mary e mais um monte de músicos.

Além dos moradores regulares, naquela casa era um entra e sai de gente o tempo todo e, por isso, tinha sempre comida pronta e quente no fogão de lenha de ferro que reinava na cozinha. A qualquer hora que alguém chegasse, ela oferecia alguma coisa para comer.

Nos fins de semana, quando a família se reunia, minha avó ia para o fogão e voltava de lá com uma enorme bacia de pipoca. Ou então chamava alguns netos às escondidas na cozinha, dava-lhes dinheiro e uma bacia de ágata e mandava que fossem à padaria, comprar massa de pão diretamente dos padeiros, que ela depois fritava em pequenos pedaços em formato de pequenos dedinhos. Às vezes ela fazia também pequenos sonhos recheados de goiabada. Ou imensas tranças de pão doce cobertas de açúcar cristal.

Depois que minha avó morreu, a casa foi deixando de funcionar como ponto de encontro da família. A venda fechou e hoje quem mora na casa é minha prima. O imóvel não passou por muitas mudanças e por isso é sempre emocionante ir até lá e ver como a lembrança dos tempos passados ainda é muito forte. Saudade, vó.

 

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                        (Minha avó na sua escrivaninha, sem data)

 

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 (Fila de netos da minha avó em frente à porta da venda. Eu sou o bebê no colo da segunda pessoa da esquerda para a direita)

 

 

 

  6 comments

    • psiulandia   •     Author

      Pena que você não a conheceu! 🙂

  1. Tania Pereyra   •  

    Ana,
    Nao sei qd vc mudou o layout do blog, mas ficou otimo. Sempre leio tudo pelo feedly e mudancas de layout acabam passando desapercebidas. E essa serie das suas casas sao uma docura. Tao bom a gente lembrar e deixar registrado.
    Beijos
    tania

    • psiulandia   •     Author

      Que bom que gostou, Tania! Volte sempre! 🙂

  2. Lourdes   •  

    Delícia de reminiscências, me conduziu a muitas lembranças.

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