Casa 5: Bauru

Em meados dos anos 60, nós nos mudamos para Bauru. A casa de lá era velha, mas melhor que a de São Manuel. Tinha uma varandinha na frente, onde meu pai ficava à noite observando o céu. De vez em quando via algum ponto móvel e nos chamava para ver: “olha um satélite!”

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(Meu irmão em frente à mureta da varanda onde meu pai ficava olhando as estrelas)

 

Muitas coisas mudaram quando fomos para lá.

Ali meu pai aprendeu a dirigir e comprou seu primeiro carro, um DKW Pracinha, que era uma perua modelo popular, com financiamento especial. A partir daí, começamos a viajar de carro e não mais de ônibus e trem, como antes.

 

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(Meus irmãos e eu ao lado da DKW parada em frente de casa)

 

Em Bauru ganhei minha primeira bicicleta, uma Monareta desmontável com freio no contrapedal, mas eu só podia andar nela quando íamos ao clube, o Luso-Brasileiro. Antes da bicicleta, tive um patinete, que gastei na calçada da nossa casa.

Naquela altura, eu comecei a ir à escola. Entrei no pré-primário – já alfabetizada – no Grupo Escolar Eduardo Velho Filho e lá fiquei até o terceiro ano. A escola era improvisada, e algumas classes funcionavam em galpões de madeira. Voltei lá há alguns anos, e a velha escola não funciona mais no mesmo lugar, ganhou prédio novo e bem convencional. Minha primeira professora era a D. Jandira e foi ela quem apartou a primeira briga em que eu me meti: disputei com um menino os tubinhos vazios de anestesia que o dentista da escola (sim, existia isso) distribuía aos alunos no recreio.

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(Primeiro dia de aula)

 

Foi também em Bauru que fiz minha primeira comunhão, depois das aulas de catequese dadas pela D. Latife. Acho que foi enquanto morávamos lá que eu, até então com um corpo normal de criança, comecei a engordar. Nessa casa, tivemos uma empregada doméstica que ficou muitos anos trabalhando com a gente, a Elza.

 

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(Nós 3 e Elza, no quintal da casa)

 

Lá fui pela primeira vez ao cinema, ver um filme de Tarzan, com Johnny Weismuller. Foi também em Bauru que assisti a “Rita, o mosquito”, filme que me tornou fã ardorosa de Rita Pavone.

De um dos lados da nossa casa, havia um terreno enorme, com uma serraria que era propriedade de uma família grande de negros, e no mesmo terreno ficavam as casas onde moravam umas 3 ou 4 gerações da família. Eram tempos em que o racismo era mais visível, mas mesmo assim nós, as crianças, brincávamos juntos na rua.

Do outro lados da casa, vivia uma família constituída de uma mãe e suas duas filhas. Uma delas, a Cila, ficou muito próxima de nós. Mesmo depois que nos mudamos de lá, continuamos em contato, até o triste dia em que ela caiu nas águas das cataratas de Foz do Iguaçu, quando tinha uns 20 anos de idade.

Voltei a Bauru há alguns anos. A casa ainda está lá, embora já muito diferente do que era. A casa da Cila continua a mesma, só ela é que não está mais lá.

  7 comments

  1. Carmem   •  

    Taí, essa casa eu conheci… por fora, claro!
    Não na época da primeira comunhão, estreia na escola e andanças de bicicleta, mas na volta, em agosto de 2003.

  2. Lucia Carvalho Bortolaço   •  

    A casa de Socorro, continua a mesma.
    É a rua que eu nasci, minha mãe ainda mora lá.

  3. Paola   •  

    Vovó mora quase ao lado de onde era o Luso em Bauru. Da última vez que passei lá o espaço era um canteiro de obras. O terreno vendido e tudo demolido. Dá uma tristeza ver tantas lembranças da infância num monte de terra.

    • psiulandia   •     Author

      Nossa, que judiação! O clube fechou?

  4. Paola   •  

    Pelo que meus tios falaram, ficou só o clube de campo, na Marechal Rondon.

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