Casa 9: Campinas

E chegamos finalmente à primeira casa em que morei sozinha. Em 1978, mudei-me para Campinas, para fazer o curso de Letras na Unicamp. Fui morar num quartinho no fundo de uma casa, no Taquaral, onde já tinha morado antes minha prima.

Era apenas um quarto com um banheiro. Num pequeno pedacinho de corredor que separava um do outro, improvisei uma cozinha, com um pequeno armário e um fogareiro daqueles de acampamento, de uma boca de fogo em cima de um mini bujão de gás. E só.

No quarto, uma cama de solteiro, um guarda-roupas pequeno, uma mesinha e uma cadeira. Mais adiante, improvisei uma estante com tijolos e tábuas que ganhei de uma colega de classe.

Não tinha telefone, não tinha aparelho de som (só um rádio-relógio daqueles antigões), não tinha geladeira.  Era uma vida bem simples, mas eu acabei amando morar ali, sozinha. Minha companhia eram as músicas da rádio que eu costumava ouvir sempre.

Na casa da frente, morava uma família composta por um casal de espanhóis idosos e o filho de meia idade, solteiro, que cuidava deles.

O quartinho tinha uma entrada independente, o que era muito bom. Não tenho fotos desse lugar, então roubei uma do Google Maps, porque a casa continua igual, depois de tantos anos. A flecha laranja aponta a porta de entrada do meu cubículo.

anaG1flecha

Morei ali durante os 4 anos da graduação e mais um da época do mestrado. Fiz algumas tentativas de colocar mais uma pessoa pra morar ali comigo, mas não deu certo. Era um espaço muito pequeno.

Dali eu ia a pé para uma rua onde passavam os ônibus para a Unicamp. O ponto de ônibus mais próximo de casa ficava a mais ou menos 1,5 km dali, distância que eu caminhava todos os dias, na ida e na volta. Muitas vezes os ônibus já passavam ali lotados, então só me restava apelar para a carona. No começo tinha um pouco de medo, mas depois me acostumei com a rotina e achava divertido.

Era a primeira vez que eu, garota criada sempre em família, no interior, ia para uma cidade grande, morar sozinha. Para a casa dos meus pais, ia pouco, pois eles continuavam morando em Araçatuba, que ficava muito longe. Muitas vezes ia passar os fins de semana em Amparo, na casa da minha tia, onde me sentia em família.

Outras vezes, aproveitava o dinheirinho que ganhava com aulas particulares de violão e passava o fim de semana em sessões seguidas de cinema. Certa vez torrei todo meu dinheiro indo várias vezes a um mesmo filme que tinha me impactado muito. Era “Julia”, de Fred Zinnemann, com Vanessa Redgrave e Jane Fonda.

Os 5 anos em que morei ali foram inesquecíveis e acho que serviram para que eu pudesse me definir como pessoa, como indivíduo, longe da casa dos meus pais.

Pra terminar, uma foto da minha turma de Letras, a primeira da Unicamp, no ano em que nos formamos, num morrinho do IEL que hoje acho que nem existe mais. Quem me acha ali?

Unicamp

  4 comments

  1. Carmem   •  

    Cozinha improvisada, estantes de tijolo… Quem nunca? (na nossa geração, claro!)

    • psiulandia   •     Author

      Mantive essa minha por muitos anos e muitas casas…

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