Cecília e eu – parte 2

Pronto, vamos continuar mais um pouco a história…
Estávamos em 1977, não é?
Naquele ano, eu prestei vestibular para aquela que seria a primeira turma de Letras da Unicamp.
Mas antes de sair o resultado, fui visitar minha prima que estava morando no Rio de Janeiro. Lá, eu tinha um plano secreto: tentar encontrar as filhas de Cecília.
Eu tinha escrito para algumas editoras, tentando contato com a família e também com alguns estudiosos da obra de Cecília. Eu era atrevida e assim já tinha descoberto que a segunda filha da poetisa, Maria Mathilde, morava então no mesmo endereço do Cosme Velho onde a minha escritora querida tinha passado as últimas décadas de sua vida.
Os mais novos não devem saber, mas os mais velhos certamente se lembrarão de que nessa época, eram raros os telefones – fixos, claro – que funcionavam, no Rio. Tentei ligar, mas não consegui.
Assim – eu era atrevida, lembram? – peguei um ônibus e me abalei para o Cosme Velho, sem ter a menor ideia de onde ficava a Rua Smith de Vasconcelos. Sim, ainda não existia o Google Maps. Nem o GPS. Nem a internet. Nem os computadores pessoais. Enfim, praticamente era a idade da pedra.
Quando o ônibus já se preparava para estacionar no ponto final, eu, que vinha triste, sem encontrar a rua, de repente enxerguei a placa, num muro antigo, onde estavam incrustadas as raízes de uma árvore muito grande e muito velha que se equilibrava no início da encosta do Morro de Dona Marta. Era ali, bem ao lado da estação do trenzinho que sobe ao Corcovado! Desci do ônibus com o coração aos pulos e, ao chegar diante da casa, sem vacilar toquei a campainha. Ah, como é bom ser jovem e inconsequente! Hoje não teria essa coragem nem essa cara de pau.
Para meu assombro, vi então descer a longa escadaria uma senhora simpática, de olhos claros, que guardava em sua aparência muita semelhança com as fotos de Cecília que eu conhecia. Aquele olhar não deixava dúvidas: era a própria Maria Mathilde quem atendia o chamado da campainha tocada por aquela menina petulante.
Identifiquei-me e disse que amava a poesia de Cecília e que gostaria de conhecer a casa. Ela, sem vacilar, me convidou a entrar. Eu mal podia acreditar que estava entrando ali!
Já na longa escadaria que percorria o jardim e levava ao casarão lá no alto, vieram à minha memória os trechos iniciais daquela conhecida crônica do livro Ilusões do mundo, chamada “Um cão, apenas”: “Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito – , eis-me no patamar.”
E lá estava eu, vivendo pessoalmente o texto da crônica, chegando ao patamar, acompanhada de Maria Mathilde e prestes a entrar naquela casa mágica, onde eu voltaria muitas vezes nos anos seguintes, e que ficou para sempre na minha memória, sem que eu jamais pudesse ter tido a oportunidade de fotografar decentemente o que vi por lá. Então vou contando aqui, tentando substituir com mil palavras cada foto que não tirei. Será que consigo?

  13 comments

  1. Paula B.   •  

    Por hora conseguindo com larga margem! 🙂

    • Ana   •  

      Vai continuar lendo mesmo no meio dessa viagem? 😉

  2. Claudio (Curitiba)   •  

    Ana, a desbravadora: eis o nome desta segunda (deliciosa) parte.

  3. Marlise   •  

    Lindo, lindo… e, outra vez, emocionante!

  4. Anonymous   •  

    Consegue sim com certeza e foi neste ano que também entrei na Unicamp e fui apresentada a Cecilia por vc uma eterna apaixonada que me mostrou poemas e me deu alguns que guardo com carinho até hj, bjusss Ana, Cris.

    • Ana   •  

      Que bom que você apareceu por aqui, Cris! Saudade!

  5. Monica   •  

    Me emociono muito com histórias verdadeiras. Conta mais Ana!

  6. Lourdes Casquete   •  

    Muito bom! Esperando os próximos!

    • Ana   •  

      Que bom, Helô! Volte! Vai ter mais! 🙂

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