Cecília e eu – parte 5

Vamos apressar um pouco o passo e resumir os 4 anos que passei no curso de Letras: foi um período interessantíssimo da minha vida, mas os poemas de Cecília Meireles apareceram pouco nas aulas de literatura… Ou, pelo menos, não apareceram com a frequência que eu gostaria de vê-los.

Em todo o caso, morando em Campinas ficou mais fácil para ampliar minha coleção de livros. Aos poucos, fui comprando o que encontrava nas livrarias e sebos.
Com a aproximação da formatura, comecei a planejar o ingresso na pós-graduação, para poder dedicar-me mais ainda ao estudo da minha escritora. E assim foi: em 1982 eu estava matriculada no mestrado com a firme determinação de estudar a obra de Cecília.
Para definir melhor meu projeto de pesquisa, comecei a buscar mais bibliografia sobre a autora. Assim, cheguei ao Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, onde encontrei um arquivo de recortes de jornal sobre Cecília. Um tesouro! Depois de fazer cópias de tudo, minha orientadora sugeriu que eu aproveitasse o material fazendo minha dissertação sobre a bibliografia existente acerca de Cecília Meireles.
O projeto ficou pronto, consegui uma bolsa e comecei a buscar material sobre Cecília de maneira mais sistematizada.
Entre os meus professores das disciplinas do mestrado, tive a sorte de contar com Alexandre Eulalio. Ele tinha sido amigo de Cecília e, além de me contar muitas histórias, teve a generosidade de me emprestar os discos do selo Festa em que a poetisa declamava alguns de seus poemas. Pela primeira vez pude ouvir a voz de Cecília! Alexandre também me emprestou suas pastas de recortes de jornais, onde encontrei muitos outros textos para minha pesquisa sobre a autora.
No início do ano seguinte, 1983, passei 6 meses pesquisando em São Paulo, frequentando bibliotecas, arquivos, jornais e até mesmo a casa de algumas pessoas que tinham sido amigas de Cecília Meireles, como Múcio Porfírio Ferreira, Ruy Affonso Machado e Lúcia Machado de Almeida. Foi delicioso conversar com eles e ouvir as histórias que contavam sobre Cecília. Alguns, como Múcio, acabaram por se tornar meus amigos também.
Depois dessa etapa em São Paulo, voltei ao Rio de Janeiro para pesquisar também por lá. Da mesma forma, frequentei bibliotecas, arquivos e as casas de amigos de Cecília.
Tive algumas surpresas inesquecíveis. Uma delas foi a amável recepção que tive do professor J. Galante de Sousa no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Casa de Ruy Barbosa. Ao saber que tinha sido aluna de Alexandre Eulalio, franqueou-me o acesso a cartas de Cecília, enviadas para sua amiga Isabel do Prado. A preciosa coleção estava ainda em processo de catalogação, já que tinha acabado de ser doada pela destinatária das cartas.
Pude também ser recebida pelo professor Afrânio Coutinho em sua Oficina Literária, que então ficava na Rua Paul Redfern, na divisa entre Ipanema e Leblon. Em meio aos livros, ele me falou de Cecília e me possibilitou o acesso a textos sobre a escritora que ele havia recolhido.
Estive com muitos amigos de Cecília, mas duas pessoas foram especialmente atenciosas comigo: a ex-embaixadora Beata Vettori e a jornalista e tradutora Isabel do Prado – sim, ela mesma, a doadora e destinatária das cartas de Cecília que eu havia encontrado na Casa de Ruy Barbosa. Era uma mulher muito interessante, com muitas histórias para contar.
Mas, acima de tudo, esses meses passados no Rio de Janeiro foram de reencontro com Maria Mathilde e a casa do Cosme Velho. Ali voltei muitas vezes, sozinha ou com minha amiga Angela, que acabou se tornando também ela uma amiga de Maria Mathilde.
A cada visita, ouvia novas histórias, ganhava novos livros, conhecia mais algum recanto daquela casa ainda tão cheia de Cecília. E, acima de tudo, solidificava minha amizade com Mathilde. E também com sua filha, Fernanda, ainda hoje minha amiga querida.

  5 comments

  1. Unknown   •  

    Poxa! Quanta coisa boa!!! É mesmo um privilégio!

  2. Lourdes Casquete   •  

    Delícia de texto. Ansiosa pelo próximo.

  3. Claudio (Curitiba)   •  

    “Cecilia e eu”, posso chamar assim o seu delicioso relato?

  4. Ana   •  

    Claro, né, Claudio! 🙂

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