Cecília e eu – parte 9

A história já se estendeu muito, mas eu prometo que está acabando… Mas antes do final , queria contar algumas histórias sobre um outro aspecto da minha relação com Cecília: as viagens.
Para quem não sabe, a escritora era uma viajante das boas.
Fez sua primeira viagem internacional em 1934, indo pra Portugal com o primeiro marido, que era o artista plástico português Fernando Correia Dias. Foram de navio, numa viagem que, entre ida, estadia e volta, levou 3 meses.
Foi nessa ocasião que aconteceu também o célebre desencontro entre Cecília e Fernando Pessoa. Foi assim: marcaram um encontro no Café A Brasileira, no Chiado, e Pessoa não apareceu. Quando Cecília voltou ao hotel, encontrou um bilhete dele dizendo que o horóscopo dizia que não era um bom dia para se encontrarem. E assim ele perdeu a única chance de conhecer Cecília pessoalmente… Costumo dizer que, de tão arrependido, está até hoje lá, sentadinho, esperando que ela volte!
Quando estive nesse café, fiz questão de tirar uma foto dando uma bronca nele. Onde já se viu faltar a um compromisso com Cecília Meireles???
Mas foi depois do início da década de 40 que Cecília viajou com mais frequência. Foram muitos países e, por decorrência, muitos novos escritos sobre essas experiências. Há 3 volumes de Crônicas de viagem já publicados, mas, além, disso, Cecília publicou também os Poemas escritos na Índia, os Doze noturnos da Holanda, os Poemas italianos… Enfim, viajar e escrever sobre as viagens se tornou uma constante na vida de Cecília.
Eu acho que também nisso sou muito parecida com ela: gosto de viajar. E, sempre que posso, incluo nos meus roteiros algum local visitado por Cecília, pra poder ver ao vivo aqueles lugares sobre os quais ela escreveu.
Acho que o primeiro desses lugares foi Ouro Preto. Desde minhas primeiras leituras cecilianas, ficou claro para mim que essa cidade era uma obsessão para ela. E acabou se tornando para mim também, tantas foram as vezes em que lá estive, sozinha ou acompanhada. Mas desde a primeira vez, levando comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência, para poder ler os poemas no cenário que os inspirou.
Fui mesmo, algumas vezes, acompanhando alunos em excursão, como uma espécie de guia literária da cidade… Nessa mesma condição, também lá estive acompanhando a escritora portuguesa Maria Teresa Horta, que se tornou minha amiga. Duas fotos desses momentos:
na primeira estamos na casa de Gonzaga e eu leio trechos do Romanceiro para Teresa Horta, seu marido Luís e Marlise, minha amiga. Na segunda, dou algumas informações históricas para um grupo de alunos:

Mas pude visitar também alguns outros lugares que Cecília amava. Na primeira vez que estive em Amsterdã, lembro-me de me sentar sozinha à beira de um canal e de ler  em voz alta o poema “Doze”, do livro Doze noturnos da Holanda, mesmo correndo o risco de ser tomada como louca…
Fui também aos Açores, à Ilha de São Miguel, onde nasceu a avó de Cecília, dona Jacinta Garcia Benevides, que foi quem a criou (o pai de Cecília morreu antes que ela nascesse e sua mãe morreu quando a futura escritora tinha apenas 3 anos).
Cecília amava os Açores e se emocionou muito quando lá esteve. Há até mesmo uma avenida com seu nome, em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel:

Estive também em Penajoia, aldeia próxima da cidade de Peso da Régua, no norte de Portugal, onde nasceu o primeiro marido de Cecília. É um lugar encantador, no meio dos vinhedos, às margens do Rio Douro,  retratado por Cecília no poema “Madrugada na aldeia”: “Madrugada na aldeia nevosa / com as glicínias escorrendo orvalho”.
Enfim, em minhas viagens muitas vezes acontecem esses momentos em que mais parece que eu estou numa peregrinação ceciliana pelo mundo… De um certo modo, Cecília também define meus roteiros de viagem…

  5 comments

  1. Anonymous   •  

    Esse trecho me faz sonhar com Amsterdão:

    “As ruas enchem-se de nuvens de bicicletas. Estudantes, operários, professores, empregados[…] Todos voltam para casa a pedalar suavemente, carregados de livros, pacotes, embrulhos…[…] os desenhos das rodas, e o brilho dos metais das bicicletas sugerem profundidade, voo, fuga, como em certos quadros abstracionistas.” (“Tico-Tico em Amsterdão” – Crônicas de viagem vol.2)

    Abraços imaginautas 🙂

    • Ana   •  

      Amsterdão é tudo o que ela fala… E mais um pouco! 🙂

    • Anonymous   •  

      concordo cidade linda demais
      Cristina Marton

  2. Lourdes Casquete   •  

    Continuo entusiasmada com os seus relatos. Não pare.

  3. Claudio (Curitiba)   •  

    Depois de 4 dias ‘fora do ar’, de volta para seu relato. Vou para a última parte, então.
    Mostrando Cecilia, conheço ambas mais um pouco.
    Beijos.

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