Efeitos colaterais

Já faz algum tempo, publiquei um post (Há bens que vêm para o mal?) sobre o tema de como as calçadas novas da Avenida Paulista acabaram tendo um efeito colateral indesejado: skatistas, patinadores e ciclistas viram naquele piso lisinho o cenário perfeito para treinar manobras arriscadas em meio aos inúmeros pedestres que caminham sempre por ali. Uma situação perigosa que até agora não recebeu nenhuma atenção da prefeitura.
Mas tem uma outra situação que, para mim, é bastante complicada e que, segundo meu ponto de vista, também nasceu de uma ideia boa. Aliás, de duas ideias boas.
Explico melhor.
Nos últimos anos, vêm prosperando as leis que proíbem fumar em lugares fechados. Nossos pulmões de não fumantes (ou de ex-fumantes, no meu caso) agradecem. Só que nada foi feito para resolver o que fazer com os fumantes, expulsos dos restaurantes e bares. Ficaram relegados às calçadas, às ruas, que se transformaram todas em fumódromos improvisados.
Acontece que beber ou comer num espaço interno e fumar num espaço externo nem sempre é uma operação fácil. Resultado: muitos bares com ocupação maior nas calçadas do que dentro. E todo mundo bebendo e fumando, feliz da vida, nas calçadas.
Coisa semelhante aconteceu em decorrência das leis que impedem menores de idade de beber. Nenhum bar ou restaurante serve bebidas alcoólicas sem comprovação de idade. Resultado: grupos de adolescentes reúnem-se, arranjam algum jeitinho de comprar bebidas e ir beber na rua, longe da fiscalização.
Ou seja, as calçadas viraram espaço preferencial de convivência desses dois grupos privados da possibilidade de beber num ambiente externo: ou pela limitação da idade ou pela necessidade inadiável de um cigarrinho.
Mas onde estaria o problema, se a rua é pública? Aí é que entra a minha costumeira rabugice: no barulho gerado por essas reuniões ao ar livre. Todo mundo bebendo, feliz, falando alto, rindo, até de madrugada. Mas a chata aqui tem sono. A chata aqui trabalhou o dia inteiro e está cansada. A chata aqui tem de trabalhar cedinho no outro dia. E a chata aqui não consegue dormir por causa da transformação das calçadas das cidades em bares ao ar livre.
Ah, e tem mais uma: os bares ao lar livre têm até trilha sonora, graças ao costume de ligar o som do carro bem alto pra fazer música ambiente. Pronto, ninguém mais dorme enquanto a noitada das calçadas não terminar.
Pelamordedeus, não estou fazendo campanha contra bebida ou cigarro. Quem quer beber, beba. Quem quer fumar, fume. Não tenho nada com isso.
Minha campanha é apenas em favor de um mundo mais silencioso, para que velhinhas chatas e que trabalham em horário comercial, como eu, possam desfrutar de seu sono reparador durante a noite. Não é muito, né?

 

  8 comments

  1. Marcie   •  

    Na próxima ida ao supermercado, compre mais ovos do que o normal, e …! 😉

    Infelizmente, o senso da civilidade não é prática normal, por aqui. Daí tem que entrar em ação minha sugestão do parágrafo acima!

  2. Juliana Bonilha   •  

    Acho que não é só a transformação das calçadas que tem gerado isso..onde moro virou hábito tomar cerveja na calçada com som ligado. É falta de educação, o que nos leva mais uma vez àquele velho discurso da base educacional; do estudo como instrumento transformador. Pena que ninguém se interessa por isso. Pena que, inclusive, incentivam a isso. O som alto – da noite – por exemplo, é um reflexo da bizarrice política: o dia todo passam dezenas de carros com propaganda chatíssimas e músicas altas. Por que alguém se preocuparia com o som alto à noite? Somos todos rabugentos. Mas teria como não ser diante dessas circunstâncias?

  3. mari   •  

    Muuuuito bom. Morava em Santa Teresa, no Largo das Neves, no 3º andar e a mais linda vista de toda a Zona Norte do Riop da varanda. Pois me mudei pros fundos, no térreo, por conta da música alta nos carros. Às duas da manhã começava a jogar pedrinhas de gelo da janela (no asfalto, só pra espantar a galera), mas cansei e me mudei.
    Vi noutro dia um doc na TV5 Monde justamente sobre isso: o tormento dos vizinhos com as calçadas cheias de bebedores fumantes… E tome processo na justiça.
    Estamos perdidos.

  4. Ana   •  

    Pois olha, gente, a sensação de desamparo é tão grande que eu, a pessoa mais pacifista e pró-desarmamento que eu conheço, já pensei em comprar uma daquelas armas de paintball, pra jogar bolotas de tinta nesses carros barulhentos!
    Mas as ideias de ovo e gelo também são boas… E mais baratas! Hum…..

  5. Shandy   •  

    Graças a Deus, moro num bairro tranquilo, onde não há bares e vida noturna que va até tão tarde assim. Mas moro de esquina e a rua lateral é uma vila sem saida. Então vc vai dizer: – Oh, que bucólico!!!
    Sim, sim, mt bucólico e muito agradável(até onde pode ser agradável acordar de madrugada com os sabiás). O difícil é a qualidade de UM determinado vizinho, que tem uma moto extremamente barulhenta e um gosto musical que não posso nem mencionar aqui. O “horror” que vem da casa dele, vai direto para a também bucólica, janela lateral do MEU quarto de dormir. Vc sabe do meu gosto musical que ainda vai para os eruditos, por ter estudado piano na adolescência. O pior, é que isso tudo acontece com porta dele fechada.
    Pode imaginar??? Compartilho a opinião de que, infelizmente a educação e respeito, estão muito distantes de algumas pessoas….ou estou ficando velha tb???
    Ah….adorei a ideia da arminha com munição de tinta!!hahahaha
    bjs

  6. chico moreira guedes   •  

    Ana, sei que não é solução pro problema em si, mas eu nunca vou dormir sem ter pertinho um par daquelas espuminhas protetoras auriculares ‘just in case’. Não protegem contra todo ruído, mas ajudam. O perigo (acontece comigo sempre que uso) é não conseguir ouvir o despertador pela manhã, risos.

    • psiulandia   •     Author

      Menino, eu uso demais esses tampões! Ajudam mas não resolvem… E eu ainda acho que o mais certo seria o mundo silenciar pra eu poder dormir sem eles! 🙂
      Volte sempre!

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