Ensaio final

Morreu hoje Fernando Faro, que foi, entre outras coisas, o criador do programa “Ensaio”, em que entrevistava, de forma pouco ortodoxa, nomes da música popular brasileira. Essa adjetivação do formato como pouco ortodoxo se deve ao fato de que o entrevistador nunca era visto ou ouvido. Somente apareciam na tela da tv os artistas em questão.

Quando assisti ao programa pela primeira vez, fiquei espantada com aqueles longos silêncios, ilustrados por detalhes em close do artista entrevistado: rosto, mãos, olhos. Eles pareciam concentrados, ouvindo uma pergunta, mas nós, espectadores, nunca a ouvíamos. Só tínhamos uma ideia da questão feita ao ouvir a resposta. Era intrigante – e delicioso, confesso.

Hoje, com a partida do idealizador do “Ensaio”, encontrei duas referências a depoimentos dele sobre sua opção por esse formato.  Numa delas, afirma: “O meu vocabulário de TV tem a pausa, o silêncio” (frase dita num especial sobre ele, na própria TV Cultura). Quanta ousadia: num meio em que tudo é som e imagem, ele escolhe o silêncio e o apagamento de sua figura! Paradoxalmente, entretanto, obtém com isso um efeito de estranhamento nos espectadores, que acabam por permanecer em atenção constante, tentando imaginar o que está sendo dito fora dos microfones. Genial.

Em outro momento, explica sua visão sobre o papel do entrevistador:  “Eu acho que o entrevistador é um ruído. Mais que isso, é um barulho. Quando ele está lá, o depoimento fica dividido. Ora, se eu pergunto a um artista: ‘Quando você nasceu?’. Ele começa a resposta dizendo ‘eu nasci em tal lugar’. Logo, a pergunta deixa tudo redundante” (entrevista a O Estado de S. Paulo, em janeiro de 2012).

Ao contrário da esmagadora maioria de entrevistadores que muitas vezes parecem querer brilhar mais que os entrevistados, Faro sabia que, deixando de fora sua voz e sua imagem, daria relevo ao que de fato interessa numa entrevista, a palavra do convidado. Essa escolha pode ser vista como um gesto de humildade, certamente, mas não há como negar a eficiência desse recurso na criação de uma ambientação única em seus mais de 700 programas, fazendo com que o “Ensaio” fosse sempre uma referência na tv brasileira.

Vai fazer falta.

  1 comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *