Eu sei o que Gal Costa comeu ontem no jantar!

Ouvi certa vez uma piada da qual gostei muito. Resumidamente, era o seguinte: um náufrago sozinho numa ilha salva outro náufrago, que vinha a ser uma belíssima mulher, atriz famosa. Ela, muito grata, dispõe-se a atender todos os desejos dele, inclusive no campo sexual. Ele fica muito feliz no início, mas alguns dias depois começa a ficar deprimido. A atriz, compadecida, pergunta o que aconteceu e ele disse que tinha um desejo secreto mas não tinha coragem de confessar. Ela se mostra aberta a qualquer coisa, então ele pede que ela se vista de homem, dê uma volta na ilha e e se encontre com ele, como por acaso. Ela atende ao pedido, estranhando um pouco mas curiosa. Quando se encontram, ele logo vai dizendo: “Cara, você não sabe quem eu estou comendo, aquela atriz famosa!”
Sempre achei essa piada muito reveladora de um dos traços mais característicos dos seres humanos, que é um certo exibicionismo. Ok, a piada fala dos homens, mas acho que todos somos assim em maior ou menor grau: boa parte da graça daquilo que fazemos está em poder contar aos outros que fizemos.
Pra mim, isso explica muito do sucesso do Twitter: é possível retransmitir aos amigos, quase em tempo real, as coisas bacanas que fazemos e que queremos que todos saibam. Assim, a timeline do twitter às vezes parece um território encantado, onde todos contamos como é gostoso o prato que estamos comendo naquele momento, naquele restaurante bacana; como o show que estamos vendo está demais; como está lindo o nosso jardim; como o pôr-do-sol visto da nossa janela é deslumbrante; como o lugar para onde viajamos é maravilhoso e assim vai…
Claro que há postagens mais na linha da denúncia: um ônibus flagrado parado em cima da faixa de pedestres, um avião pousado no rio, um prédio em chamas, mas parece mesmo que a maior sensação é poder mostrar aos seus seguidores como você é feliz. A própria palavra “seguidores”, aliás, às vezes nos coloca numa posição hierarquicamente superior à dos nossos seguidores. E de hierarquicamente inferiores aos que seguimos, claro.
Eu comecei a usar o Twitter no início do ano passado, justamente quando aquele avião pousou no rio Hudson e notícia com foto apareceu primeiro na postagem de um tuiteiro que passava por lá na hora. Achei muito legal essa possibilidade de compartilhamento quase instantâneo, e na mesma hora criei minha conta. Eu tinha acabado de comprar um smartphone, então logo comecei a usar o Twitter não só no computador mas também – e principalmente – através do Gravity (um ótimo aplicativo do Twitter), no meu celular. Fiquei viciada.
Mas confesso que tenho outro vício: o de pensar sobre as coisas. Então notei que um outro efeito interessante proporcionado pelo Twitter é uma sensação de intimidade – no mais das vezes falsa – com as pessoas que não conhecemos pessoalmente mas que seguimos por ali. Acompanho alguns perfis de celebridades, e confesso que é engraçado, por exemplo, ler Gal Costa contando que vai jantar um caldo verde na companhia de seu filho ou Roberta Sudbrack mostrando uma foto do seu cachorro Frederico passeando pela casa. Acho que esses flagrantes da intimidade dos famosos criam uma falsa sensação de que compartilhamos de seu universo, colocando-nos mais próximos deles.
Ver na minha lista de seguidores o perfil de Yoko Ono, por exemplo, fez com que eu me sentisse poderosíssima… Mas nada como olhar a lista de pessoas que ela segue e ver que sou apenas uma entre quase 350 mil pessoas. Ou seja, quem diz seguir 350 mil pessoas é porque não segue ninguém, né?
Uma outra característica do Twitter são os perfis falsos de celebridades, que muitas vezes são até mais famosos do que os verdadeiros. Existem também as personalidade que só têm vida própria no Twitter.
Quer saber? No fundo, acho que em maior ou menor medida somos todos fakes no Twitter… O jeito é encarar tudo como uma encenação, como de resto é nossa vida toda! Para concluir, um trechinho da “Tabacaria” do Álvaro de Campos que, penso eu, tem tudo a ver com esse assunto:
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

  6 comments

  1. Lourdes   •  

    Ana: É exatamente o que penso. Parabéns, belo texto.

  2. Cleicia   •  

    Oi Ana,

    Parabéns pelo texto, excelente. Uma visão bem real deste mundo virtual.

    Um beijo,
    Cleicia.

  3. Ju   •  

    É REALMENTE DISSO QUE EU ESTAVA FALANDO! MAS O QUE EU ACHO PIOR É QUE TEM ALGUMAS PESSOAS QUE SE ESQUECEM QUE TÊM LEITORES (CONHECIDOS) E ESCREVEM SEGREDOS, COISAS MTO ÍNTIMAS! ÀS VEZES FICO ENCABULADA PELA PESSOA! mAS FAZER O QUE?! CADA UM É O QUE QUER NO TWITTER!!!

    ADOREI O TEXTO!!!

    BJOS!!!

    JULIANA BONILHA

  4. Tino Com   •  

    Gostei muito do texto! E maravilhosa a combinação com o poema do Álvaro de Campos (lindíssimo poema!). Grande palco que é a vida, procuro ao máximo não exercitar meu lado Charlatão de mim “pra migo”, viu!
    Obrigado pelo comentário no meu blog, Ana. Volte quando quiser! Estamos sempre com novos produtos (um fresquinho inclusive). Se estivermos fechados, toque a campainha ao lado.
    Abraços de seu novo amigo de blog,
    Tino.

  5. Cai neste post, por causa da sua lista dos 7 links e não é que adorei! Essa história do cara na ilha é mesmo o máximo para ilustrar o carater exibicionista do twitter.

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