Gritando por silêncio???

A revista Época São Paulo do mês de março tem uma matéria interessante chamada “Gritando por silêncio”. Se você não leu, a íntegra da reportagem está aqui: http://migre.me/g18

Em resumo, o artigo fala de um movimento iniciado no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, contra os barulhentos da madrugada. Moradores do bairro criaram algo chamado “Movimento Guerrilheiro πsil”, que propõe que as pessoas que fazem barulho de madrugada sejam alvo de represálias na forma de bexigas cheias de água. Nenhum dos líderes se identifica, e divulgam o movimento num blog vizinho daqui: http://www.pissil.blogspot.com/, onde chegam a insinuar que as bexigas podem ser enchidas também com urina.

Fui dar uma olhada por lá e de cara já fiquei meio bronqueada, porque declaram que combatem “gritos de gordas histéricas, bêbados sem noção e buzinaços desnecessários”. Senti um certo clima de machismo e de preconceito em relação às pessoas gordas, e fiz questão de deixar meu comentário sobre isso no blog deles. Sou mulher, gorda, e vivo implorando por um mundo mais silencioso… Enquanto isso, por exemplo, garotos magrinhos ficam urrando pelas ruas cada vez que seu time faz um gol… Não dá pra reconhecer um barulhento só pelo seu sexo ou pela forma do seu corpo, feliz ou infelizmente. E isso de associar histeria ao sexo feminino não perdoo nem mesmo nos que começaram a estudar esse tema no século XIX.

Mas além do preconceito exposto já na primeira postagem do blog e na primeira página da matéria da revista, eu penso que essa proposta de guerrilha urbana não se afina muito com minha maneira de encarar possibilidades de militância anti-ruídos noturnos.

Sou muito condicionada pela minha formação meio anos 60 e acabo acreditando que esse tipo de ataque só nos equipara aos que nos incomodam. Retibuir uma agressão com outra sempre me parece o começo de todas as guerras. E o próprio título da matéria já expõe, de certo modo, essa contradição: gritar por silêncio me parece de uma incoerência total!!!

Leis mais rigorosas, fiscalização mais eficiente, melhor educação para todos: não vejo outra forma de resolver as coisas que consideramos erradas no nosso mundo, como o sambão ao vivo, em alto volume, que rola num boteco aqui ao lado enquanto escrevo este post, às 22 horas de um sábado.

Psiu!!!!!!!!!!

  6 comments

  1. Anonymous   •  

    Talvez já conheça, mas é bem interessante!
    Abços,
    Jussara Pimenta

    Escutatória (Rubem Alves)

    Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

    Todo mundo quer aprender a falar… Ninguém quer aprender a ouvir.

    Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

    Escutar é complicado e sutil.

    Diz Alberto Caeiro que… Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

    É preciso também não ter filosofia nenhuma.

    Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas..

    Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

    Parafraseio o Alberto Caeiro:

    Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.

    É preciso também que haja silêncio dentro da alma.

    Daí a dificuldade:

    A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor…

    Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

    Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração…

    E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

    Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.

    No fundo, somos os mais bonitos…

    Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.

    Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.

    Há um longo, longo silêncio.

    Vejam a semelhança…

    Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio…

    Abrindo vazios de silêncio… Expulsando todas as idéias estranhas.

    Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.

    Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

    Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos…

    Pensamentos que ele julgava essenciais.

    São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

    Se eu falar logo a seguir… São duas as possibilidades.

    Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.

    Na verdade, não ouvi o que você falou.

    Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.

    Falo como se você não tivesse falado.

    Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.

    É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

    Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada..

    O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.

    E, assim vai a reunião.

    Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.

    E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

    Eu comecei a ouvir.

    Fernando Pessoa conhecia a experiência…

    E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… No lugar onde não há palavras.

    A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

    No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

    Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia…

    Que de tão linda nos faz chorar.

    Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.

    Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.

    Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

  2. Rose Sztibe   •  

    É isso ai, garota. Concordo em gênero, número e grau.Não dá pra combater violência com violência.

  3. Dannilo   •  

    Concordo muito com vc qndo vc diz que combater o silêncio com gritaria é ridículo. Sou muito mais a favor das leis rigorosas.. Fazer o que, né? Só se aprende assim… Mas em questão ao físico, acho que foi mais por força de expressão. Qndo vc sente muita raiva de alguma coisa, vc generaliza algo.. Eu acho chato, mas as vezes acontece, né? Eu sempre tento não fazê-lo… isso pode ofender algumas pessoas, mas nem levaria para o lado pessoal, pq, pior que magrinhas pobres e escandalosas q eu encontro mto no metrô(to generalizando pq nem todas são assim), são os magrinhos gritando por causa de um gol! Nossa! Duas rolhas, por favor… uma pra colcoar na boca dos infelizes.. e a outra pra fazer tortura..hehe.. essa seria uma ótima pena para os barulhentos..rs

    Um beijooooooooooooo!!!

  4. Sandro Fortunato   •  

    Se for para generalizar por sexo, não há dúvidas de que homens fazem MUITO MAIS BARULHO do que mulheres. Buzinas, carros com som alto, gritaria e foguetório durante o futebol…

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