Liberdade, essa palavra…

Já tem algum tempo que eu estou matutando sobre esta postagem, mas parece que nunca consigo colocá-la online. Hoje eu decidi que finalmente chegou o dia.
Começo contando um caso ocorrido – mais uma vez – num ônibus. Eu estava fazendo uma viagem de trabalho entre São Paulo e Araraquara. Já a bordo, começo a ouvir aqueles desagradáveis ruídos de um desses celulares que funcionam por rádio. No caso desses aparelhos infernais, a gente tem de ouvir periodicamente um som de campainha que sinaliza de quem é a vez de falar. Além disso, quase todo mundo que eu conheço que tem um celular desses deixa o dito cujo funcionando no viva-voz. Ou seja, é uma verdadeira orquestra composta por pelo menos 3 instrumentos: a voz de quem está ao seu lado, a voz da pessoa com quem ele fala e a maldita campainha alternando entre um e outro. Dentro de um ônibus, essa combinação pode levar qualquer um à loucura.
Por causa disso, e por causa da longa conversa que vinha sendo obrigada a testemunhar, comecei a lançar alguns olhares de desagrado ao rapaz que estava ao telefone. Num determinado momento, ele notou meus olhares e perguntou, muito irritado, por que eu estava olhando tanto pra ele. Eu disse que o celular dele incomodava o ônibus todo. O que me surpreendeu foi a resposta dele: “E a minha liberdade? Tenho toda a liberdade de falar ao telefone!”
Mais irritada ainda, disse que liberdade total ele tinha, sim, dentro da casa dele, que ali era um espaço público e ele tinha de respeitar os demais.
De alguma maneira acho que funcionou, pois ele terminou a tal conversa e dormiu o resto da viagem.
Mas esse acontecimento me abriu os olhos para o fato de que está acontecendo alguma coisa muito louca nesse mundo. Tenho a impressão de que depois de tantos anos de ditadura, as pessoas resolveram levar o conceito de liberdade a patamares que chegam facilmente ao nível da falta de educação.
Qualquer possibilidade mínima que seja de restrição é vista como cerceamento, como opressão.
A mesma coisa se pode dizer dessas barbaridades que certos “comediantes” tem falado aqui e ali.
Tenho visto inclusive nas redes sociais pessoas que julgam que podem dizer o que quiserem sem qualquer restrição. Todo questionamento é visto como censura, como atentado à liberdade de expressão.
Sinto muito, caros leitores, mas a velha e boa expressão que a gente aprendia na escola está cada vez mais atual e necessária: a minha liberdade vai até onde começa a do outro. Se o que eu estou dizendo ou fazendo incomoda outras pessoas, eu preciso levá-las em consideração. Qualquer coisa além disso não é mais do que falta de educação.

  12 comments

  1. Sofia   •  

    Ana:
    Concordo totalmente com você! Me irritam as pessoas que se acham sempre no direito de fazer tudo o que quiserem, me irritam os comediantes medíocres, me irritam quem os seguem sem questionar…
    Abraços,
    Sofia

  2. Marcie   •  

    O problema, minha cara, é que nós aprendemos esta expressão na escola ( a liberdade termina quando começa a do outro), nas velhas e boas aulas de Educação Moral e Cívica. Já há muito tempo esta matéria foi abolida das escolas. E, para piorar, os pais acham que não podem falar não para seus adoráveis rebentos… Ou seja, uma combinação muito perigosa!

  3. Tiago   •  

    Onde é que eu assino, Ana?
    É realmente lamentável ver a que ponto o nosso individualismo chega. A gente se isola tanto que nem se dá conta de que pode estar incomodando alguém.
    Triste!
    Tiago

  4. Celinha   •  

    Ana,
    Meus pais sempre me ensinaram exatamente com essa mesma expressão, e levo isso como norte para tudo na minha vida. E concordo totalmente com você: tudo o que vai além do respeito ao próximo é sim falta de educação.
    Beijo.

  5. Fabíola   •  

    Ana,
    É impossível não concordar com seu ponto de vista. O pior é que está cada vez mais difícil viver em um mundo povoado por individualistas e “sem noção”. :/
    Beijão,

  6. Natalia Itabayana   •  

    Excelente texto, reflexão sempre atual e triste constatação, infelizmente. Me pergunto onde vamos parar com a falta de limites que impera numa sociedade cada vez mais individualista, onde o proveito próprio é usado como bandeira para todo e qualquer tipo de comportamento. E concordo com o comentário da Marcie sobre a forma como as crianças estão sendo criadas, o “não” sendo cada vez mais visto como insulto…

  7. Viaje com a Flora   •  

    Assino em baixo. Como a Marcie disse, eu e minhas filhas crescemos ouvindo que nossa liberdade termina quando começa a do outro.

  8. Luciana Betenson   •  

    Também assino embaixo! Cresci aprendendo e respeitando esta máxima de que a liberdade termina onde começa a do outro e fico estupefata com o que vejo hoje. Outro dia no ônibus da Azul entre SP e Campinas o motorista teve que interferir, porque tinha uma rapaz ouvindo funk no seu celular “radinho de pilha”, incomodando todo mundo. Meu cunhado na ponte aérea da TAM! Ele reclamou do som e o senhor o convidou para ouvir a música com ele. Juro. Por fim, da última vez em que fomos ao Pinguim aqui em Rib. Preto, havia três (!!) mesas com seu próprio som, também celular “radinho de pilha”. Fico imaginando o dia em que liberarem os celulares nos voos… o que vai ter de gente falando alto no celular e celular tocando no meio da noite, não vai ser fácil. Bjs

  9. Luciana Betenson   •  

    Ana, também assino embaixo. Também cresci ouvindo esta máxima de que a nossa liberdade termina onde começa a do outro. E tenho visto de tudo. No ônibus da Azul entre SP e Campinas, o motorista foi obrigado a interferir e mandar um rapaz desligar seu celular “radinho de pilha” que tocava funk. No voo da TAM SP-RJ, meu cunhado reclamou do som e o senhor descarado convidou-o a “ouvir seu som com ele”. E até no Pinguim, da última vez em que estivemos lá, havia 3 (!!) mesas com seu próprio som de celular “radinho de pilha”. Fico imaginando o dia em que forem liberados os celulares em voos longos. O que vai ter celular tocando de madrugada e gente falando alto no meio da noite, não vai ser fácil.

  10. Luciana Betenson   •  

    Ana, também assino embaixo. Também cresci ouvindo esta máxima de que a nossa liberdade termina onde começa a do outro. E tenho visto de tudo. No ônibus da Azul entre SP e Campinas, o motorista foi obrigado a interferir e mandar um rapaz desligar seu celular “radinho de pilha” que tocava funk. No voo da TAM SP-RJ, meu cunhado reclamou do som e o senhor descarado convidou-o a “ouvir seu som com ele”. E até no Pinguim, da última vez em que estivemos lá, havia 3 (!!) mesas com seu próprio som de celular “radinho de pilha”. Fico imaginando o dia em que forem liberados os celulares em voos longos. O que vai ter celular tocando de madrugada e gente falando alto no meio da noite, não vai ser fácil.

  11. Sandra Ferreira   •  

    Bravo, Ana.
    Na minha primeira incursão ao Facebook, entusiasmou-me muito chegar à Psiulândia,terra boa em que a poluição sonora não tem vez. Aplausos (discretos, para não fazer muito barulho). Beijos.

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