Meninos, eu vi!

Estou envelhecendo. Não, isso não é um problema para mim, mas a idade (e a memória ainda razoável) me colocam algumas vezes em situações engraçadas. A questão é que a grande maioria das pessoas com quem convivo nas redes sociais não viveram na mesma época que eu. Ou, então, parecem ter esquecido muito do que se passou nas últimas décadas.

Toda essa introdução é para dizer que, nesses dias turbulentos que estamos vivendo no Brasil, ouço às vezes alguns comentários que me deixam perplexa. Tenho sempre a vontade de dizer, com Gonçalves Dias, “meninos, eu vi!”

O mais comum é o daqueles que relativizam (ou pior, idealizam) a época da ditadura militar. Eu era ainda adolescente, mas me lembro bem do clima pesado, das prisões, dos “sumiços” de pessoas. E não, a vida não era mais fácil, ao contrário.

Entrei para a universidade em 1978 e acompanhei a fase da anistia, da abertura, da reconstrução da UNE.

Quando comecei a trabalhar na minha profissão, felizmente já vivíamos a fase do início da democracia, mas por outro lado convivíamos com a hiperinflação, um monstrengo herdado do falso milagre econômico propagado pelos militares.

Chegamos a ter inflação anual na casa dos milhares e, no mês, na casa das dezenas, cerca de 80% nos piores meses. A coisa era tão feia que o som ambiente dos supermercados era o das maquininhas de remarcar peço (não existia código de barra). Um produto subia de preço ao longo do dia, portanto era melhor ir logo cedo ao mercado.

Pegar o vale do salário era uma forma de antecipar um pouco as compras do mês e evitar a corrosão gigante do pagamento que chegava no início do mês seguinte. Qualquer reservinha financeira era bem aplicada em mantimentos para garantir a subsistência.

Desemprego? Tinha pra dar e vender. Não dava nem pra reclamar dos desmandos dos patrões. O meu, por exemplo (amiguinho dessa corja que está sempre no poder), pagava o nosso salário no dia 20 do mês seguinte, ou seja, eu recebia quase dois meses depois de ter trabalhado. Não dava pra reclamar, porque a demissão era certa.

Em 1987, a crise era tão grande que o presidente Sarney pediu moratória da dívida externa, ou seja, parou de pagar os juros que devíamos ao FMI. Em outras palavras, o Brasil decretou falência. Podem imaginar o tamanho da encrenca?

O salário mínimo, nessa época, valia menos de 100 dólares. Em 1990, por exemplo, valia exatos 58 dólares. Tem tudo na internet, em sites confiáveis, se você não acreditar em mim. Aqui, por exemplo, tem vários gráficos sobre a evolução do salário mínimo.

E assim fomos, de plano econômico a plano econômico, de inflação a hiperinflação até o início do Plano Real, já nos anos 90, quando as coisas começaram a melhorar, pelo menos no que se refere à inflação. Melhora no salário só viria depois da virada do milênio, com o mínimo chegando a mais de 300 dólares em 2014.

Por ter vivido tudo isso, fico um pouco espantada quando escuto as pessoas dizerem que o Brasil vive hoje a pior crise econômica de sua história. Sinceramente, ou vocês são muito mais novos do que eu ou perderam a memória. Pode estar difícil, mas nossa situação não é nem de longe semelhante às crises dos anos 70 a 90. E para saber disso, se a sua idade ou a sua memória não permitem, basta um pouquinho de pesquisa. Faz bem.

 

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  2 comments

  1. Maria Auxiliadora Guilherme Ferreira   •  

    O que me mata é gente da minha idade (58) , que não lembra disso ou se faz de esquecido.

    • psiulandia   •     Author

      Exatamente por isso escrevi esse post… 🙂

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