Obrigada, professor

Acho que não existe um professor de Literatura que não tenha uma dívida de gratidão para com Antonio Candido (sim, sem acentos, como ele mesmo assinava). Hoje, sabendo da sua partida, quero contar como minha carreira acadêmica em alguns momentos cruzou com a dele.

Antonio Candido não foi meu professor. Tive o prazer de assistir a algumas aulas avulsas e conferências suas, sempre muito instigantes. Por duas vezes, porém, ele esteve presente de modo decisivo na minha vida.

Uma delas foi quando decidi estudar Letras. Na verdade, cheguei à Unicamp e ao Instituto de Estudos da Linguagem matriculada no curso de Linguística (a mão do trema chega a tremer). Ao longo do primeiro ano, entretanto, soube que Antonio Candido estava montando o curso de graduação em Letras, tendo como docentes muitos de seus ex-orientandos.

Os matriculados naquele ano de 1978 puderam, ao final dos 2 primeiros semestres, optar entre Letras e Linguística. Escolhi a primeira e acabei integrando a turma pioneira naquele curso concebido por Candido e seus discípulos.

Por causa disso, sempre me senti um pouco “neta acadêmica” de Antonio Candido, já que fui aluna de seus alunos e orientanda de seus orientandos…

Anos mais tarde, prestei concurso e fui trabalhar na Unesp de Assis, justamente no Curso de Letras que, ainda no final da década de 50, Antonio Candido tinha ajudado a organizar.

Claro que, nos anos 90, a estrutura já estava muito diferente do havia sido nos anos 60, mas muitos de meus colegas mais velhos ainda se lembravam dos tempos em que o mestre lecionava ali. Candido sempre foi a grande referência para todos que passaram pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis.

Foi ali que ele terminou de escrever a sua obra Formação da Literatura Brasileira, fato que está registrado nos volumes desse livro fundamental para todo estudante de Letras.

Em várias ocasiões, Antonio Candido deu depoimentos sobre os tempos em que viveu em Assis, sempre com uma evidente nostalgia daquele período: “todo mundo sentia que estava participando de uma grande aventura cultural”, disse ele certa vez, quando lhe perguntaram sobre como tinham sido aqueles dias.

Infelizmente, nunca estive muito próxima de Antonio Candido, mas certa vez, em 2008, atrevi-me a enviar-lhe uma correspondência, pedindo-lhe alguma declaração sua sobre João Antônio, já que eu, naquela altura, era a coordenadora do acervo desse escritor, na Unesp.

À moda antiga, naqueles tempos que eram de comunicação por e-mail, o professor enviou-me uma carta manuscrita, que acompanhava um texto datilografado e corrigido à mão por ele mesmo, com uma breve apreciação sobre João Antônio. Guardo com carinho as imagens digitais do envelope e de seu conteúdo, já que os originais ficaram no Acervo do escritor na Unesp. São essas imagens que ilustram esta postagem.

Obrigada por tudo, professor.

 

  2 comments

  1. Claudio   •  

    E assim, sem precisar de autorização, vamos sabendo de sua biografia, professora.
    Beijocas.

    • psiulandia   •     Author

      Minha vida é um HD sem senha… 🙂

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