Pelo fim da cultura do estupro

Eu não conheço nenhuma mulher que não tenha tido alguma experiência de abuso sexual. Eu mesma, que nunca correspondi aos padrões de beleza e daquilo que se considera feminilidade, já passei por alguns.

Na época da hashtag #primeiroassedio, relatei que eu devia ter 5 anos de idade quando um homem adulto enfiou a mão na minha calcinha enquanto eu escolhia um doce pra comprar no armazém ao lado de casa.

Eu acho que a gente acaba assimilando tanto essa rotina das investidas indesejadas dos homens que às vezes nem se dá conta do quanto elas são demonstrações de poder dos homens sobre os corpos das mulheres.

A cultura do estupro está tão entranhada em nossa existência que nem nos damos conta dela.

Para ilustrar, quero contar uma experiência que vivi quando morava em Campinas e estava fazendo faculdade, no final dos ano 70.

Foi assim: eu ia visitar uma amiga, numa noite de chuva. Era cedo, acho que em torno das 8 da noite. Ela morava relativamente perto de casa, dava para ir a pé, mas havia um trecho meio deserto, onde antes passava a linha do trem. Os trilhos foram removidos e nada foi construído ali, só havia mato. A rua que ligava meu bairro ao dela passava por esse local.

Exatamente ali, um homem se aproximou de mim, me agarrou pelo braço e pôs a mão entre as minhas pernas. Eu dei um grito que era mais um urro. Virei o guarda-chuva aberto na direção dele, para me defender. Não sei até hoje o que fez com que ele me deixasse escapar e correr para a casa da minha amiga.

Eu cheguei lá tremendo e chorando e contei tudo para ela. Talvez com a intenção de fazer uma brincadeira e me acalmar, ela me disse algo que me chocou e de que nunca me esqueci: “Não chora, Ana, da próxima vez você consegue que ele vá até o fim”. Ainda hoje, quando me lembro, a frase me faz mal.

Era uma brincadeira, eu sei, mas pra mim mostra muito como nós mesmas podemos ver os nossos corpos estando a serviço do desejo masculino. Ou seja, nós mesmas podemos alimentar a cultura do estupro, que em algum momento se volta contra nós e nós destrói.

Já passou da hora de darmos um basta nisso.

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  4 comments

  1. Beth Salgueiro   •  

    é verdade, cada uma de nos tem uma estoria parecida com a sua para contar…

  2. Heloisa Righetto   •  

    Ana, eu lembro do seu relato no #primeiroassedio e lembro de ter ficado chocada. Agora mais ainda lendo isso e o comentario da sua amiga!

    • psiulandia   •     Author

      Toda mulher tem historinhas de terror assim, né, Helô? É uma tristeza.

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