Pobre Tiradentes!

Como prometi no post anterior, chegamos à segunda questão. Começo dizendo que eu tenho adoração pelas cidades históricas de Minas, principalmente por Ouro Preto, cidade que me deixa sempre emocionada. Mal começo a enxergar o Itacolomi no horizonte e já fico com os olhos cheios d’água. Ando pelas ruas imaginando tudo o que se passou por lá, olho para as casas e penso no que aquelas paredes centenárias testemunharam, enfim, sou constantemente assombrada pelos fantasmas dos séculos passados que certamente rondam por aquelas ruas.
Enquanto estava lá emocionada, andando pelas ruas, encontrei, com muita frequência, carros com aqueles sons potentes, tocando música ruim em volume tão alto que ninguém consegue mais pensar em nada! Em Mariana, inclusive, no domingo, a apresentação de música barroca com violino acompanhando o maravilhoso órgão Arp Schnitger da Sé teve de ser suspensa por alguns minutos, enquanto passava pela rua um desses chatos ambulantes.
Fiquei até pensando se a vibração poderosa dos sons graves desses alto-falantes não prejudicaria, de alguma maneira, as frágeis testemunhas da nossa história que ainda existem por lá. Será que as pedras e as madeiras do século XVIII não são abaladas por aquela vibração desagradável? Não deve ser à toa que esse gênero de “música” também é chamado de bate-estaca!
Ainda que não haja esse inconveniente, uma coisa certamente é quebrada por esses carros que pululam por Ouro Preto e arredores: a sensação que conseguimos parar um pouco o tempo e sentir de alguma maneira o ambiente, o clima, a energia que andava por aquelas ruas.
Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.
Ó pontes sobre os córregos! Ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!
Teria Cecília Meireles conseguido escrever versos como estes, do Romanceiro da Inconfidência, ao som de um bate-estaca nas ruas de Ouro Preto? Poderia ela imaginar que um dia, mais do que a frequência do sol e a erosão causada pela ventania, a cidade veria a frequência dos carros subindo e descendo as ladeiras com o som nas alturas, com seus bate-estacas desgastando as frágeis pedras históricas que sobreviveram à ventania?

  2 comments

  1. Tino   •  

    Olha, esses chatos ambulantes estão por toda parte! Mas, pensei que fosse mais difícil sua chegada em cidades históricas…Que triste! Mas, o que é que eles estão fazendo lá?!?

    Por esses e outros motivos, é comum a minha hesitação em deixar minha casa para ir passear…
    Aproveito o ensejo, cara Ana Maria, para mostrar a vc uma espécie de spa virtual que criamos (mais um de nossos empreendimentos).

    Quando tiver um tempinho, dê um pulinho lá!
    Forte abraço,
    Tino.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *