Viajando pelo século XVIII

Um grupo de 7 blogueiras decidiu essa semana fazer uma blogagem coletiva, com o tema “5 livros que marcaram nossa vida de leitoras”. A Mari Campos, do blog Pelo mundo é uma dessas blogueiras. Lendo esse post dela, tive a ideia de escrever sobre uma relação entre literatura e viagem que pra mim sempre foi muito forte, mas sobre a qual ainda não falei.
Como alguns já devem saber, sou apaixonada pela poesia de Cecília Meireles. Entre os livros que ela escreveu, está o famoso Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953.

A ideia de escrever o livro, conta a própria Cecília, nasceu de uma viagem a Ouro Preto, no início dos anos 40, ocasião em que ela se sentiu transportada ao século XVIII. A partir daí, surgiu uma paixão que durante 10 anos a levou a pesquisar os acontecimentos da Inconfidência Mineira e escrever o livro.
Minha primeira viagem às cidades históricas de Minas Gerais, portanto, nasceu já dessa relação entre Cecília e aqueles lugares.
Sempre que lá estive carreguei comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência. Tem outro gosto ler aqueles poemas nos lugares onde aqueles eventos aconteceram. Vagava pelas ladeiras, me sentava à frente das igrejas e casarões e lia, lia, lia.
Estar em Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Mariana, Sabará e não ter comigo os poemas de Cecília estava fora de cogitação. Na mala, sempre ia o volumezinho!
Nas minhas aulas de literatura, sempre faço campanha para que meus alunos conheçam essas cidades, porque acredito que nenhum brasileiro pode deixar de ter essa experiência do Brasil.
Vai daí que, há alguns anos, um grupo de alunos decidiu ir para Ouro Preto no final do ano letivo. Eles me propuseram, então, ir com eles e fazer essas leituras de poemas nos passeios do grupo pela cidade.
Eu fui, e foi muito emocionante. Ler os poemas em silêncio, só para mim, tinha um sentido. Lê-los em voz alta, diante dos alunos e dos monumentos, tinha um impacto ampliado sobre mim.
Na casa de Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, por exemplo, lia uns dos poemas intitulados “Cenário”: No jardim que foi de Gonzaga, / a pedra é triste, a flor é débil, / há na luz uma cor amarga.”
Diante das escadas da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, vendo ao fim da ladeira a casa de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília, lia o tristíssimo poema “Retrato de Marília em Antônio Dias”, que a  descreve já velhinha, subindo a ladeira para ir à missa naquela mesma igreja onde depois seria sepultada.
Mas o momento mais emocionante dessa viagem foi quando, diante das madeiras que dizem ter sido as da forca onde foi morto Tiradentes, li o trecho do “Romance LXIII ou do silêncio do alferes”. Depois de ler a última estrofe desse trecho, que inclui a passagem da morte de Tiradentes (“Já lhe vão tirando a vida. / Já tem a vida tirada. / Agora é puro silêncio, / repartido aos quatro ventos, / já sem lembrança de nada.”), sem nenhuma combinação prévia, soou um sino muito próximo, talvez da vizinha Igreja do Carmo. Foi um momento mágico, que deixou a todos nós surpresos e emocionados.
No ano seguinte, voltei às cidades históricas com alguns amigos. Dessa vez, o momento mágico aconteceu em Tiradentes. Lá, diante da casa do Padre Toledo, onde dizem ter acontecido algumas das reuniões dos conjurados, li o “Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência”: “Através de grossas portas, / à luz de velas acesas, / brilham fardas e casacas, / junto com batinas pretas.” Enquanto fazia a leitura, começou a tocar num alto-falante próximo uma música barroca que tinha tudo a ver com aquele clima. Depois que terminei a leitura, descobrimos que a música antecedia um anúncio fúnebre, que começou logo depois de encerrado o poema. Parecia, de novo, tudo combinado com algum fantasma dos inconfidentes ou de Cecília Meireles!
Agora em julho deste ano, voltei mais uma vez com meus alunos. Foi de novo uma sucessão de momentos mágicos. Para os alunos, ficou claro que algum fantasma nos acompanhava quando, ao terminar minha preleção inicial, antes de entrarmos no Museu da Inconfidência, novamente o sino da Igreja do Carmo fez sua participação especial!
Enfim, para a minha experiência, as cidades históricas de Minas Gerais e o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, são indissociáveis. Recomendo a quem queira experimentar. Mas cuidado: coisas mágicas costumam acontecer!


Lendo para os alunos na primeira etapa, diante da Igreja de São Francisco de Assis, em 2012. Foto de Carmem Almeida.

  3 comments

  1. Imaginauta   •  

    Ah, esses fantasmas líricos não? Sempre tão bem vindas as coisas mágicas.

  2. Marcie   •  

    Lindo post, Ana.

    Não vejo a hora de poder testar sua mágica. Estou ensaiando e cancelando há anos, esta viagem. 🙁

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